MEMÓRIAS DE UM VELHO BOTONISTA
Eu tinha uns 8 ou 9 anos (década de 60’), quando ganhei da minha Tia Gersone, uma caixa de madeira com várias fichas de jogos de carteado e botões, botões de verdade, grandes, de vários tamanhos. A princípio não sabia o que fazer com aquele “presente” e passava os dias olhando-os e tentando achar uma utilidade para eles. Já existiam aqueles botões de plásticos, a mesa tipo estrelão, mas custavam caro (pelo menos para meu pai que não podia comprar esses brinquedos). Tínhamos na sala um grande tapete todo colorido e um dia deu-me um estalo. Separei as fichas e os botões por tipo e tamanhos e com lápis de cor e decalques de distintivos de clubes, que comprei na papelaria do bairro desenhei vários times do Campeonato Paulista: O meu São Paulo, o Santos, o Corinthians, o Palmeiras, O São Bento de Sorocaba, a Ferroviária, etc.., peguei um giz e com uma ripa de madeira fui desenhando um campo de futebol sobre o tapete (minha mãe havia saído para trabalhar) e não precisa dizer a bronca que levei quando ela voltou do serviço. As medidas foram tiradas da minha cabeça, pois não tinha a menor idéia das dimensões de um campo, quanto mais reduzindo para o tamanho de um tapete. Em um caderno fiz a tabela com todos os jogos do campeonato, onde eu era o técnico de todos os times, pois não tinha crianças da minha idade na vizinhança que pudessem participar. Eu não conhecia a palheta e os botões eram acionados com o dedo indicador mesmo, que impulsionava o botão, que batia na bola e assim se faziam os passes e chutes a gol. Esses campeonatos duravam semanas e curiosamente o São Paulo sempre terminava campeão, diferentemente da realidade dos anos 60’, quando o Tricolor passava por uma “draga” que dava dó. Em 65 ou 66 mudamos para outra casa, próximos de outros primos e a vida havia melhorado “um pouquinho”. Meu Pai havia me dado uma folha de “Eucatex” que sobrara de uma obra em casa e com ela construí o meu primeiro campo de futebol de botão. Comprei um desses times de banca de jornal e substitui a parte central de cada botão por "camisas" que fiz. Chamei-o de Arsenal, mas não me lembro porque, pois eu não acompanhava o Campeonato Inglês, nem outro da Europa, e a “camisa “ fiz igual a do Fluminense. Cada primo comprou também um time de banca de jornal e disputamos memoráveis campeonatos no “estádio de eucatex’. Passaram-se uns quinze anos e somente no final da década de 70 e que voltei a praticar o futebol de mesa, quando conheci um pessoal que jogava na loja do seu Paulo Brianezzi, no bairro da Moóca. Foram pelo menos 5 anos disputando campeonatos na loja de calçados. O seu Paulo uma vez inventou uma olimpíadas do botão, onde haviam várias modalidades de esportes sobre a mesa de botão, como handebol, basquete, futebol de salão, etc... com mesas feitas com os desenhos das quadras mesmo. Os times de botão eram comprados do seu Paulo, que comercializava também as mesas, os porta-botões, que hoje chamamos de ônibus, além das bolinhas, que eram contas de plásticos cobertas com um fio de lã. Certa vez nessas olimpíadas, na semi final de uma partida de handebol, jogavam o Paulo Aissum (que embora não fosse um dos melhores da época, jogava razoavelmente bem) e um menino que se inscrevera e que ninguém conhecia. O Paulo Aissum já se considerava classificado para as finais e não é que o menino, que mal alcançava a mesa para impulsionar os botões, fez um gol e por mais que o Aissum chutasse e pressionasse, não conseguiu marcar nenhum gol e o garoto ganhou o jogo. O Paulo ficou tão nervoso, pois todos passaram a torcer pelo menino durante o jogo e a derrota foi motivo de chacota durante muito tempo, que ele abandonou as olimpíadas daquele ano e passou várias semanas sem aparecer na loja do seu Brianezzi. Foram bons tempos aqueles e pude conviver com feras como o Guilherme Biscasse, o José Aissum, o Paulo Aissum (irmão), o Mingão e outros. Nesse universo do futebol de mesa, haviam figuras incríveis que devido a suas personalidades ficaram na minha memória e sempre que se fala em futebol de mesa elas me voltam à lembrança. Um deles o José Aissum, que junto com o Guilherme Biscasse foram os melhores jogadores que vi em ação. Certa vez ficaram nessas olimpíadas do Brianezzi o jogo final entre o Guilherme e o José Aissum e tudo parou para que se assistisse a esta partida. O jogo foi tenso e acho que o José fez um gol e o jogo foi se arrastando, até que o Guilherme empatou e desempatou e acabou por vencer acho que por 4x2. A grande diferença entre os dois, para mim era o poder de concentração e a calma que o Guilherme conseguia administrar durante um jogo. Ao contrário o José se perdia em nervosismo quando se via frente a frente com uma situação de decisão como aquela. Outra figura folclórica era o Mingão, um corintiano que era pura emoção, pois jogava sempre para a frente e ou vencia por goleada ou amargava vexatórias derrotas. Bom, mas vamos voltar a história, em pouco tempo a maioria dos jogadores usavam times de botão que eu fiz a arte, o Goiás para o José Aissum, o Corinthians para o Mingão, o América de Rio Preto para o Paulo Aissum e mais alguns.Um dia pedi para o seu Paulo me vender os botões sem os adesivos e pinturas, comprei material (fitas “durex’, tintas sintéticas de várias cores) e fiz um time do Fluminense para mim. Seu Paulo Brianezzi viu o time e achou tão bonito que pediu-me para fazer vários modelos de camisas de vários times brasileiros e que depois ele levou para a gráfica e passou a usá-los em sua produção de botões. Não me lembro se fui pago por isso, mas acho que recebi em material, botões sem pintura, para fazer times para outros jogadores, pois as pinturas fizeram um grande sucesso. Devido a problemas pessoais, um dia o seu Paulo Brianezzi decidiu acabar com os jogos e passamos então a jogar nas casas dos jogadores, cada vez na casa de um. Mas isso não deu certo, pois a paciência de esposas e mães nem sempre combinavam com o amor pelo futebol de mesa e fomos algumas vezes convidados a nos retirar dessas casas. Eu mesmo perdi uma namorada (linda!), por causa do futebol de mesa. Para evitar esses problemas, começaram a surgir os clubes de futebol de mesa, como o Colégio São Judas e Colégio Riachuelo em Campos Elíseos, onde o José Aissum trabalhava e devido a sua influência nos foi cedido um espaço (quente e úmido) no porão, onde eram disputados os campeonatos. Mais tarde apareceram também o Botunice do Geraldo Décourt e o AREA, que era administrado por engenheiros e cuja sede era na Avenida Jabaquara, bem no final da Avenida Indianópolis. Lá conheci entre outros o Hideo Ue. Esse clube tinha uma peculiaridade que uma vez por ano o futebol de mesa era substituído por um jogo de Fórmula 1 em uma mesa com pistas e carrinhos imitando os carros de verdade (na época o Piquet estava na Willians e fazia o maior sucesso). Cada jogador tinha dois carros (scuderia) e tinha tomada de tempo, óleo na pista, quebras, etc.... Bem nessa época os botões de acrílico já haviam invadido todos os clubes e as tampas já não faziam frente a robustez desses botões e jogadores como eu perderam o interesse pelo futebol de mesa. Em 1985 consegui um emprego na Prefeitura de São Sebastião-Litoral Norte e mudei-me para cá, onde moro até hoje, e desde esse dia nunca mais joguei uma partida. Agora em dezembro de 2010, vi no site da Prefeitura de São Sebastião uma notícia a respeito do jogador sebastianense Flávio Moraes que conseguiu alcançar o 1º lugar no ranking do futebol de mesa do LITOVALE, torneio que reúne jogadores do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Despertou-me então a vontade de voltar a jogar e agora terei que me adaptar aos botões de acrílico. Esta é a minha história e o que me deixa um pouco triste é ver matérias sobre o futebol de mesa, e nomes como o de José Aissum e tantos outros nem sequer sejam mencionados.
Deixo aqui minhas saudações aos meus amigos botonistas:
José Aissum, Paulo Aissum, Mingão, O saudoso Antonio Maria Della Torre, o também saudoso Geraldo Décourt, Hideo Ue, o Luis Carlos "Schalke" (para quem não sabe esse apelido se deve ao fato de eu ter feito para ele a arte do time alemão e o apelido acabou pegando), além do meu irmão Beto Antunes, que hoje se dedica ao futebol do “Playstation”, por achar que esse jogo eletrônico é mais interessante.
Existem outras histórias e "causos" ocorridos no decorrer desses maravilhosos anos, mas que ficam para outra vez....
Nenhum comentário:
Postar um comentário